Qual é a relação entre a quantidade de canetas em uma gaveta e a demissão de funcionários de uma empresa em situação de crise? Para o consultor Hélio Terzoni, um fato pode estar diretamente ligado a outro e a explicação é uma só: desperdício. “Veja na sua gaveta, agora, quantas canetas há disponíveis. Duas? Três? Cinco? Agora multiplique esse número pela quantidade de funcionários que trabalha em sua empresa. Pode ser que a última compra de canetas tenha sido desnecessária, e gastos desnecessários significam perda de receita que pode resultar na demissão de funcionários para conter os gastos”, explicou Terzoni.
Situações aparentemente simples como essa podem passar despercebidas por muitos gestores, e é justamente nesses pequenos pontos que está a diferença entre lucro e prejuízo – em uma visão mais crítica, como pedem os atuais tempos de crise, a diferença entre permanecer aberto gerando empregos ou falir. Segundo o consultor, a aplicação de princípios como os do Sistema de Produção Enxuta, ou Lean Manufacturing, pode trazer um aumento de produtividade de até 40%, independentemente do tamanho da empresa.
Comparados a americanos e europeus, os brasileiros perdem de goleada quando o assunto é produtividade. O que um trabalhador dos EUA produz em um dia leva, em média, seis para ser concretizado por um de seus pares brasileiros. E não é só deles que estamos atrás: Chile e Peru têm índices de produtividade três vezes maiores do que os tupiniquins. Mas o que fazer para deixar esse desperdício todo de lado?
“As empresas precisam diferenciar muito bem o que agrega e o que não agrega valor ao produto. Meu cliente pode pagar um preço um pouco maior se meu produto tem algum diferencial, e isso precisa ser incentivado. A caneta que eu produzo escreve de um jeito mais suave, e eu posso cobrar a mais por isso. Agora, se o meu produto é encarecido porque o papelão leva tempo demais do fornecedor até a linha de montagem das caixas de transporte, isso não é valor agregado. Qualquer atividade que absorve recursos e não se revertem em ganhos precisam ser imediatamente eliminadas”, afirmou Terzoni.
Na fábrica de doces gerenciada por Karina Thiemi Perardt, pequenas mudanças na forma de produção trouxeram grandes benefícios. “Nós não tínhamos um fluxo de produção com começo, meio e fim. Era começo, meio e bloqueio”, contou a diretora da empresa. “Os operadores tinham que fazer movimentos desnecessários, como buscar equipamentos e materiais que estavam colocados longe de onde eram utilizados. Mudamos a disposição das máquinas na linha de produção, nada muito grande, e em apenas um processo conseguimos economizar R$ 280 mil.”
Atingir bons resultados e produzir mais com menos é uma ótima ideia. Mas Karina aponta que mesmo as pequenas mudanças podem causar certo desconforto em um primeiro momento, principalmente entre os funcionários com mais tempo de casa. Convencer os trabalhadores que é possível operar uma fábrica de doces da mesma forma como se monta um carro pode causar certo estranhamento, segundo ela.
“Às vezes estamos trabalhando de um jeito tão automático que acabamos nos viciando e achando que não vale a pena mudar. A princípio, pode parecer estranho, mas fabricar um carro é muito parecido com fazer uma paçoca. A matéria prima precisa entrar de um lado, ser trabalhada para chegarmos ao produto final. É assim também com uma fábrica de roupas ou mesmo de eletrodomésticos. É só uma questão de se adaptar”, avaliou.
Com menos custos e contas fechando no azul, a empresa está estudando uma nova estratégia de remuneração dos funcionários para os próximos anos. Além dos salários, existe a possibilidade, ainda em fase de estudos pela direção, de dividir os lucros com os trabalhadores. “É bom porque todos ganham. A empresa tem maior produtividade e o funcionário é reconhecido por essa colaboração. Isso tudo obtido por mudanças que a princípio são pequenas, que trazem grandes resultados.”
Tipos de desperdício mais comuns
Em uma empresa, o desperdício pode aparecer na forma de retrabalho. Em outras palavras, quando algo precisa ser refeito por não estar de acordo com os parâmetros estabelecidos. “Imagine que um dos colaboradores ficou a tarde toda formatando a apresentação de um projeto, e isso foi feito na vertical. No momento de apresentar o trabalho, viu-se que tudo precisava ser feito na horizontal. Esse tempo foi todo perdido”, exemplificou o consultor Hélio Terzoni.
A espera por documentos, que podem ficar por semanas parados em mesas e gavetas de chefes e diretores é outro dreno da produtividade, segundo o consultor. Ele disse ter trabalhado com uma empresa em que prazos de uma semana eram considerados normais para a liberação de pedidos de produção. “Quem sofria eram os responsáveis pela produção, que no final das contas tinham uma semana a menos de tempo para concluir o trabalho”, lembrou.
O desperdício intelectual é outro tipo de prejuízo tão letal quanto os outros, e bem menos lembrado. Projetos que levam semanas, às vezes meses para serem discutidos e não se concretizam são verdadeiros devoradores de produtividade. “O funcionário tem uma boa ideia, verifica a viabilidade, reúne uma equipe e começa a discussão para a implementação desse projeto. Só que algum tempo depois o projeto para. Todo esse tempo dispendido pela equipe não volta, e poucos gestores veem isso como um desperdício. Pelo senso comum, desperdício é uma lâmpada acesa, uma torneira pingando. É muito mais do que isso”, alertou. JL.
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