Demonstrando não se recordar de detalhes do que relatou aos promotores
do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) em
depoimentos prestados há um ano, nos dias 5 e 9 de fevereiro de 2015,
quando fez acordo de delação premiada após ser preso por suposto
envolvimento em esquema de exploração sexual, o fotógrafo Marcelo
Caramori, ex-assessor da Casa Civil no governo de Beto Richa (PSDB),
despertou críticas de advogados de réus no processo relativo à Operação
Publicano 1, cujas audiências começaram a ser realizadas na
segunda-feira.
Confrontado com trechos dos depoimentos e questionado sobre o
alcance de suas declarações, o assessor – que hoje se diz vendedor de
água de coco e caldo de cana – respondeu quase sempre com "eu não me
recordo" e "desculpe, mas não me lembro". Foi reticente em algumas
situações e enfatizou que não teria presenciado qualquer ato criminoso,
mas que, sim, teria ouvido dizer sobre atos ilícitos. Seu depoimento
durou uma hora e meia e ocorreu sem a presença de quaisquer réus na sala
de sessões do Tribunal do Júri. Por ser delator, o fotógrafo tinha
direito a não falar na presença de pessoas que denunciou. O juiz titular
do processo, Juliano Nanuncio, da 3ª Vara Criminal, pediu que todos os
auditores (cerca de uma dezena) e outros réus saíssem do recinto.
Caramori atribuiu o esquecimento ao passar do tempo e às
dificuldades que teria enfrentado ao longo de 2015, após ser preso. Em
linhas gerais, repetiu que confirmava o que tinha declarado nos
depoimentos ao Ministério Público (MP). Ele reafirmou, no entanto,
demonstrando ter mais certeza, as relações de amizade entre o empresário
Luiz Abi Antoun, parente distante de Richa, e o auditor Márcio de
Albuquerque Lima, que seria uma indicação de Abi.
Abi é apontado pelos promotores na segunda fase da Publicano
como "líder político do esquema" de arrecadação de propina; Lima é tido
como líder da suposta organização criminosa nos processos relativos às
primeira, segunda e quarta fases. Abi não é réu neste processo em que
Caramori prestou depoimento.
O fotógrafo mencionou ainda conversas que teria ouvido entre os
auditores Luiz Antonio de Souza, o principal delator da Publicano, e o
ex-chefe da Receita de Londrina José Luiz Favoreto, quando ficou preso
na mesma cela que ambos, no início do ano passado, na unidade dois da
Penitenciária Estadual de Londrina (PEL 2). Os dois também respondem
processo por exploração sexual de adolescentes.
Para o advogado de Favoreto, Walter Bittar, as declarações
envolvendo seu cliente são fruto da recusa de atender a um pedido de
dinheiro feito por Caramori. Ontem, ao questionar o fotógrafo,
apresentou um bilhete que teria escrito pelo ex-assessor e entregue a
Favoreto ainda na cela da PEL. Constaria do papel o número da conta
bancária de Caramori. "Ele pediu dinheiro dentro da cela para meu
cliente, se ele não pagasse ia fazer delação premiada. Não falou em
valores. Demonstrou que esse delator faltou com a verdade", declarou
Bittar.
Nanuncio indeferiu o pedido de juntado do documento. O argumento
é que o prazo para anexar provas ao processo já se exauriu. Questionado
sobre o motivo de não ter apresentado o bilhete antes, Bittar disse que
simplesmente que "justamente para que a gente pudesse comprovar que ele
falta com a verdade na sua delação porque nos temos além desse outros
elementos".
Vianna, defensor de Caramori, encerrou a coletiva antes de ser
questionado sobre tal bilhete. No depoimento, o fotógrafo disse que não
se lembrava se tinha escrito ou não o número de sua conta bancária
naquela papel apresentado por Bittar. Sobre os esquecimentos do cliente,
Vianna afirmou que "ele tentou esclarecer todas as perguntas, mas
evidentemente muita coisa ele não se recorda se viu ou se ouviu, mas
conseguiu confirmar grande parte do que ele disse em 2015 ao Ministério
Público".
Avaliação semelhante tem o advogado Eduardo Duarte Ferreira,
defensor do principal delator do esquema. "O Marcelo Caramori não sabia
as minúcias do esquema. Quem sabe e vai falar é o Luiz Antonio, meu
cliente. O Caramori confirmou genericamente a estrutura política dentro
da Receita", avaliou. O interrogatório de Souza está marcado para 7 de
março.
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