Em seu primeiro discurso no posto de presidente interino da República, Michel Temer (PMDB-SP), 75 anos, fez ontem um apelo ao setor privado e à classe política pelo apoio a medidas e reformas para retomar o crescimento do país e defendeu que a Operação Lava Jato não sofra interferências que possam enfraquecê-la. "A moral pública será permanentemente buscada por meio dos instrumentos de controle", disse. "A Operação Lava Jato tornou-se referência e, como tal, deve ter seguimento e proteção contra qualquer interferência que possa enfraquecê-la", acrescentou. Temer assumiu o cargo após o Senado afastar a presidente Dilma Rousseff (PT) no início da manhã de ontem, após 21 horas de sessão iniciada na manhã de quarta-feira. Foram 55 votos favoráveis e 22 contrários ao afastamento da petista - dos senadores paranaenses, Alvaro Dias (PV) votou sim; Roberto Requião (PMDB) e Gleisi Hoffmann (PT) votaram contra.
Na cerimônia de posse dos novos ministros, Temer se concentrou em afagar o Congresso Nacional, se comprometeu à manutenção dos programas sociais do governo petista, elencando-os nominalmente, e disse ter "respeito institucional" à presidente afastada Dilma Rousseff. "Faço questão e espero que sirva de exemplo declarar meu absoluto respeito institucional à presidente Dilma Rousseff. Não discuto aqui as questões por que ela foi afastada, mas observo a liturgia do trato das questões institucionais", disse Temer, que se tornou o 41º a ocupar o cargo de presidente da República. Em discurso de cerca de 25 minutos, apesar de ter citado a petista, o peemedebista não poupou críticas à gestão da presidente afastada. Segundo ele, o país vive neste momento "sua pior crise econômica" e uma "grave situação caótica" na área da saúde. "Nosso maior desafio é estancar o processo de queda livre da economia", disse. "Compreendemos o momento delicado, difícil e ingrato. Não podemos olhar para frente com os olhos de ontem", acrescentou. O peemedebista também prometeu medidas de saneamento da máquina pública. Além do corte de nove ministérios, ele anunciou a encomenda de estudos para eliminar cargos comissionados e funções gratificadas desnecessárias, "sabidamente na casa dos milhares".
O presidente interino reconheceu que não busca a "unanimidade" na aprovação popular, mas ressaltou que usará o diálogo como busca de um entendimento.
"É urgente pacificar a nação e unificar o país. É urgente fazermos um governo de salvação nacional com partidos políticos e entidades organizadas que me prestem colaboração para tirar o país desta grave crise em que nos encontramos", disse.
Entre as propostas sugeridas, o peemedebista defendeu o incentivo a parcerias público-privadas e uma revisão do pacto federativo, que dê maior autonomia a estados e municípios. Ele pregou também, apesar de ter reconhecido derem temas controversos, reformas trabalhistas e previdenciárias com o objetivo de dar sustentabilidade à administração federal.
"A modificação que queremos fazer tem como objetivo o pagamento das aposentadorias e geração de emprego. A busca da sustentabilidade será balizada pelo diálogo e pela conjugação de esforços", disse. Na chegada do presidente interino ao Palácio do Planalto, foram lançados fogos de artifício. MINISTÉRIO
Presidente da Câmara por três gestões e tido como conhecedor dos bastidores legislativos, Temer anunciou um ministério composto em sua maioria por deputados federais e senadores. O peemedebista agendou para hoje, no Palácio do Planalto, a primeira reunião com sua equipe ministerial.
O governo fechou a conta em 23 ministérios, um a mais do que aliados do peemedebista vinham anunciando em conversas de bastidor. O número, porém, é menor do que os 32 ministros da gestão Dilma Rousseff.
Antes um espécie de departamento vinculado à presidência da República, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) ganhará status de ministério. Em compensação, a Advocacia-geral da União (AGU) perderá o título, que tinha durante o governo petista. Chama a atenção a ausência de mulheres no ministério de Temer.
Os dois últimos nomes anunciados foram Helder Barbalho (PMDB), para o ministério de Integração Nacional, e Fernando Coelho (PSB), para a cadeira de Minas e Energia. De total de novos ministros, 13 são congressistas, ou seja, 57% do total da nova configuração da Esplanada dos Ministérios. O percentual representa quase o triplo com que Dilma iniciou o seu segundo mandato, em 2015, com 7 congressistas nas 39 cadeiras - 18% do total.
Com o agravamento da crise e o avanço de seu enfraquecimento político, a petista cedeu mais cadeiras para a Câmara e Senado, mas a medida não conseguiu conter a onda que resultou em seu afastamento. BASE DE APOIO
Aliados e porta-vozes de Temer no Congresso dizem que, em linhas gerais, sua base de apoio começa mais ou menos com o tamanho dos votos pró-impeachment: 367 das 513 cadeiras da Câmara e 55 das 81 do Senado. O número é suficiente para aprovação de mudanças na Constituição (308 e 49, respectivamente), mas haverá dissidências, muitas delas resultantes de demandas não atendidas na montagem da nova gestão. Além disso, PT, PC do B, PDT, Rede e Psol, derrotados com a saída de Dilma, prometem oposição aguerrida a um governo que consideram golpista e sem legitimidade. Folha de Londrina.
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